Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Entrevista escrita

 

1. Professor, antes de tudo, quero agradecer a sua disponibilidade…
Meu amigo, eu agora tenho todo o tempo do mundo!

2. António Gedeão? Rómulo de carvalho? Afinal qual é o seu verdadeiro nome?
Rómulo Vasco da Gama Carvalho, assim me tratam. António Gedeão é o simplesmente um pseudónimo.

3. O estudo, uma das suas grandes virtudes, onde foram passados esses momentos?
Bem, completei o ensino primário no Colégio de Santa Maria. Entre 1917 e 1925 estudei no liceu Gil Vicente, nesse mesmo ano matriculei-me no curso Preparatório de Engenharia Militar da Faculdade de Ciências. Três anos depois mudei-me para o Porto, onde me matriculei no curso de Ciências Físico-Químicas, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, conclui-o em três anos. Em 1934 realizei o Exame de Estado para o Ensino Liceal, iniciei a actividade docente no Liceu de Camões (Lisboa), continuei-o no Liceu D. João III (Coimbra), depois no Liceu Pedro Nunes (Lisboa), onde aqui fui professor metodólogo a partir de 1958. Entretanto, em 1946 foi um dos directores da Gazeta Física, lá permaneci, sensivelmente até 1974.   

4. O que foi para si ensinar?

Ensinar?... Foi uma espécie de mágica! Foi tornar as coisas mais comuns do mundo em objectos de contemplação e reflexão. Foi suscitar a curiosidade, foi fomentar a imaginação e usá-la como ferramenta duma conjectura que propus aos alunos e a que eles aderiram, recriando-a, porque a “descobriram”. É claro que para se criar o gosto de aprender foi preciso fornecer as bases necessárias para que os alunos confiassem nas suas habilidades para conjecturar. Restou-nos a nós, professores, encaminhá-los e guiá-los no início da caminhada, adverti-los dos riscos que poderiam ser assumidos e, sobretudo, reconhecer o esforço e os progressos por eles desenvolvidos.

5. Mas não foi só professor, que outras profissões exerceu?
No que toca a essa matéria, muito percorri: depois de professor ainda fui pedagogo e autor de manuais escolares, historiador da ciência e da educação, divulgador científico e poeta.

6. Com tantas ocupações, tinha tempo para a poesia? Já agora podemos saber quando é que se reformou?
Meu amigo, a minha vida sempre tive tempo para tudo. Reformei-me em 1974, conclui 40 anos de actividade docente, e aposentei-me da Função Pública

7. Em que circunstâncias nasceu António Gedeão? 
António Gedeão nasceu e morreu em datas muito precisas. Eu sempre fiz versos ao longo de toda a vida. Como me interessava muito por História e pelas questões nacionais, resolvi escrever a continuação de “os Lusíadas”. António Gedeão nasceu quase com 50 anos e surgiu para concorrer a um concurso de poesia promovido pelo Ateneu Comercial do Porto, em 1954, a propósito do centenário da morte de Almeida Garrett. O Ateneu resolveu homenagear o escritor, li a notícia do concurso no jornal e resolvi concorrer. Enviei então quatro poemas num caderno que se chamava “Experiência Dolorosa”. Logo a seguir, saiu no jornal a lista dos concorrentes, cerca de 90, ainda antes do júri se ter pronunciado. Confessei nas minhas memórias que “não gostei nada de ver o meu nome ali no jornal”. O nome foi incluído na lista dos estreantes que nunca haviam publicado poesia e os poemas foram depois seleccionados pelo crítico literário João Gaspar Simões. Era lógico que eu não queria aparecer com o nome verdadeiro porque era um professor muito considerado num meio pequeno como Coimbra, onde todas as pessoas se conhecem ou julgam que se conhecem, e foi assim que nasceu António Gedeão. A partir daí, mantive o pseudónimo, que adquiriu uma personalidade própria e uma assinatura própria. Fiz até um desenho à pena que é o auto-retrato de António Gedeão.

8. Qual a influência dos seus pais no seu percurso de vida?
Os meus pais eram algarvios de uma família modesta e nada tinham a ver com as ciências ou o ensino. Meu pai era funcionário dos Correios em Lisboa, assim como três dos seus irmãos. Meu avô foi mestre de capela na Sé Catedral de Faro. Compunha e escrevia música, tinha uma veia artística e, portanto, do ponto de vista cultural tinha um determinado nível. O meu pai sabia música, lia e cantava e tinha até uma voz muito atraente que o levava a ser convidado para cantar nas igrejas, em Lisboa e Évora. Minha mãe foi das pessoas que mais me influenciaram, pois, apesar de ter só a instrução primária, devorava livros e sabia de cor imensos poemas. Havia uma base cultural que podia evoluir em vários sentidos. Eu próprio dizia que não sabia se havia de escolher Letras ou Ciências porque me interessavam ambas e sentia que era capaz de se realizar em qualquer delas. Dentro das Ciências, também não sabia se devia optar pela Química ou pela Física porque também me interessavam ambas. Na profissão, escolhi o ensino porque tinha o desejo de ser útil aos outros, nomeadamente de ser útil aos jovens, naquela fase, como ele dizia, em que já se libertaram da chupeta e do calor maternal. Aliás, se não tivesse escolhido o ensino, por razões de natureza intelectual, onde digo, nas minhas memórias, que gostaria de ter sido marceneiro.

 9. Um homem que desde os 5 anos viveu em completa comunhão com a escrita, como é que decidiu em licenciar-se em Ciências? Deveu-se à atracção pelo lado experimental destas?

Desde muito novo que escrevia, é verdade, fazia os meus poemas, tínhamos saraus literários lá em casa, com a minha mãe e os meus irmãos! Mas também desde muito novo que gostava de trabalhar com as minhas próprias mãos... se não tivesse escolhido a área do ensino gostaria de ser marceneiro, pedreiro, metalúrgico... Sabe, fiz muitas coisas lá para casa, até fiz mobílias!... A Física e a Química sempre me atraíram não só pelo seu lado experimental mas e sobretudo por poder meter as mãos na própria matéria.

 10. Que nome tinha o primeiro livro que editou?
"Movimento Perpétuo", foi publicado em Coimbra em 1956, já eu tinha feitos 50 anos, desde então comecei a usar o pseudónimo de António Gedeão.

11. Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida...” Estas palavras foram apresentadas pela 1ª vez em 1969 no programa “Zip-Zip”, pela voz de Manuel Freire. O poema chama-se “Pedra Filosofal” e rapidamente marcou uma geração, tornando-se uma bandeira de luta e de crítica à ditadura de então...
O sonho comanda a vida! Quando escrevi a Pedra Filosofal foi uma forma de abanar com muita gente, tirá-las do amorfismo a que se tinham acomodado tempo demais. Mas continuo a acreditar que o seu êxito se deve, sobretudo, a ter sido musicado e cantado pelo Manuel Freire!... O poema, por si só, não tem a força que lhe deu a música e a voz do Manel...

12. Quando escrevia, havia alguém em especial ou um sitio especial que lhe desse inspiração?
Não. Nunca estive sentado diante de uma folha de papel à espera de inspiração. As palavras ocorriam-me espontaneamente, muitas vezes a propósito do quotidiano e compunha o poema de cor onde quer que estivesse. Depois, chegava a casa e escrevia.

13. Como era como pai? Era uma pessoa austera ou descontraída?
Não, n
ão era austero, mas também não era descontraído, estava numa situação intermédia. Sempre acompanhei muito os meus filhos, levava-os ao jardim zoológico e a espectáculos para crianças, fui um pai presente. Penso que todos os pais gostam dos filhos, mas há várias maneiras de gostar. Era também fotógrafo e tenho um livro publicado pela Relógio d’Água chamado “A Memória de Lisboa”. Como apreciava o passado e amava a minha terra, passeava por Lisboa nas horas livres e fotografava os monumentos. A importância não está apenas na fotografia, mas no que escrevia como legenda, do ponto de vista da história desse monumento.

14. Acha que teve o reconhecimento devido?

Eu acho que sim e talvez me sinta até um pouco emocionado e admirado com a dimensão desse reconhecimento. Existem duas escolas com o meu nome: a Escola Básica 2,3 António Gedeão, em Odivelas, e a Escola Secundária António Gedeão, em Almada, onde eu já fui várias vezes, quando me foi atribuído o nome à escola. Existem azulejos com os meus poemas escritos pelos alunos. Certamente que tive todo o reconhecido nas gerações existentes.

 
15. O professor Rómulo e o poeta Gedeão querem deixar uma mensagem aos telespectadores?

Aos telespectadores?... Não sei quantos colegas irão ver o seu vídeo... Para eles, uma pergunta apenas: ainda não deram, em doidos com o estilo de vida em Portugal, com a falta de disciplina e, sobretudo, com a falta de respeito?!! Por exemplo: Gedeão, mesmo depois de literalmente morto, a obra que vos deixei continua bem presente nos dias de hoje...o sonho, para muitos, continua a comandar a vida! E sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança. E com esta me vou… O divino soberano não me deu muito tempo. Tenho de o respeitar e se fica aqui muito tempo, ainda vão julgar que é maluquinho

 

 

 

publicado por xaimitas às 10:49
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